A Cia. Brasileira de Ópera é uma iniciativa inédita na história da música erudita no Brasil. Pela primeira vez um projeto de amplo alcance percorreu o Brasil de norte a sul levando até públicos muito distintos, um espetáculo de música lírica, com elenco e produção de níveis internacionais num padrão que é difícil alcançar mesmo nas grandes capitais brasileiras.

Quem acompanhou a turnê 2010/2011, por 24 cidades brasileiras, de Manaus a Porto Alegre, pode assistir a uma versão inovadora e bem humorada de O Barbeiro de Sevilha, de Rossini.

Em praticamente todas as cidades por onde passou com o O Barbeiro de Sevilha lotou os teatros e atraiu uma enorme atenção da imprensa, ganhando capas dos jornais locais e matérias nas principais redes de televisão. Numa rápida pesquisa na internet pode-se contar mais de 1 milhão de citações da Cia. e do seu Barbeiro. É um resultado espetacular para um primeiro ano de trabalho.

Uma grande equipe, com mais de setenta pessoas entre maestros cantores, músicos e técnicos  percorreu mais vinte mil quilômetros, por terra e pelo ar, enfrentando as distancias e as diversidades de um país como o nosso e apresentando-se nos mais importantes teatros do Brasil.

Além das mais de 70 apresentações da ópera de Rossini, foram realizadas quase 40 récitas infantis, num espetáculo especialmente concebido para as crianças e jovens. Só ele reuniu mais de 35 mil espectadores numa iniciativa inédita no Brasil.

O espetáculo foi agraciado com os dois mais importantes prêmios culturais do país, como melhor espetáculo de ópera de 2010, o Prêmio APCA Associação Paulista de Críticos de Arte e o XIV Prêmio Carlos Gomes.

Uma nova forma de fazer ópera

Ele estava bem no centro do palco. Os holofotes miravam seus movimentos no trecho da história mais importante para o seu personagem. Foi nesse momento, próximo do clímax da ária do Fígaro, que o barítono Sebastião Teixeira teve uma idéia arriscada para uma estréia. Depois de soltar o primeiro “Fígaro!”, ele estendeu as mãos e pediu ao público que o acompanhasse na sequência conhecidíssima de chamados ao barbeiro da ópera. A platéia não titubeou: mais de mil crianças entoaram, sem nenhum ensaio prévio, o coro de vozinhas agudas que animou aquela tarde de 27 de junho de 2010, no Grande Teatro Palácio das Artes, em Belo Horizonte. “Fígaro! Fígaro! Fígarooo!”

Chamar o público para a ópera, como Sebastião Teixeira fez na primeira récita infantil d’O Barbeiro de Sevilha, da Cia. Brasileira de Ópera, foi o objetivo principal do projeto que levou a história do barbeiro espertalhão para 24 cidades brasileiras. Mais de 95 mil pessoas assistiram às mais de 100 récitas, dedicadas aos públicos adulto e infantil, de um espetáculo que priorizou um jeito novo de apresentar um antigo gênero musical.

Para qualquer aficionado de ópera, ver termos como “ousadia”, “inovação” e “desafio” associados a uma produção de O Barbeiro de Sevilha soa estranho, ou, pelo menos, exagerado.

Afinal de contas, trata-se de um dos títulos mais populares do repertório, sendo encenado com regularidade no Brasil desde 1821 - apenas cinco anos depois da estréia mundial, em 1816.

Contudo, a montagem de O Barbeiro de Sevilha levada a cabo pela Cia Brasileira de Ópera é completamente distinta de qualquer outra que tenha ocorrido por aqui nos quase dois séculos que nos separam da estréia do espetáculo no Brasil. No Brasil, uma ópera costuma ficar em cartaz por, no máximo, cinco récitas. O Barbeiro de Sevilha montado pela Cia. Brasileira de Ópera foi apresentado 88 vezes na sua turnê de estreia.

Nada de cenários convencionais. Para atrair a atenção do público, a produção aplicou uma linguagem nova ao gênero. Os trabalhos de criação começaram em abril de 2009, em Florença, na Itália pouco mais de um ano antes da estréia em Belo Horizonte, no dia 24 de junho de 2010.

A ordem foi surpreender. Por isso, a criação desta montagem foi concebida num ambiente pouco usual para uma montagem de ópera: numa prancheta de desenho.

Ao cartunista Ítalo-americano Joshua Held e ao diretor cênico Píer Francesco Maestrini coube resolver o desafio de encenar uma ópera completa ao vivo em desenho animado.

Criados à imagem e semelhança do compositor Gioachino Rossini, os personagens de O Barbeiro de Sevilha nasceram todos a partir de uma mesma base de corpo – rechonchudo – na qual apenas detalhes de figurino, cabelo e adereços diferenciavam cada um. Uma homenagem ao compositor italiano, reconhecido pelo seu apreço à gastronomia. Quadro a quadro, os autores foram elaborando as cenas do espetáculo de forma a conciliar artes tão diversas quanto a ópera e o desenho animado. Outra realidade proporcionada pela montagem com animação foi a possibilidade de centenas de cenários no palco – algo improvável em qualquer montagem sempre restrita pelos espaços de boca de cena e de coxia.

O projeto resgatou a prática de percorrer o país levando um espetáculo de ópera. Repetiu-se, assim, a história vivida pelo Brasil na virada do século XIX para o XX, quando companhias estrangeiras desembarcavam aqui com o intuito de levar espetáculos de ópera aos mais diversos teatros do país.

Muitos anos depois, a Cia Brasileira de Ópera surgiu com a mesma intenção de disseminar a arte lírica pelo país. Adaptada, logicamente, às evoluções tecnológicas que permitiram apresentar mais récitas num intervalo de tempo mais enxuto.  E voltando a levar produções líricas a centenários teatros históricos, erigidos como marcos urbanísticos na belle époque, que estavam há décadas sem receber o tipo de espetáculo para o qual haviam sido originalmente concebidos.

A logística da turnê e a pré-produção do espetáculo precisou ser meticulosa, já que nunca havia sido feita antes uma turnê desta proporção e não havia referência de como executar essa agenda. A formação da orquestra também dependeu de muito cálculo e planejamento.

Alternaram-se músicos de várias regiões do país, como Salvador, Porto Alegre, Curitiba, Manaus, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, além de alguns residentes fora do país, como na Holanda, Espanha, Itália e Estados Unidos.

Encerrada a turnê de 2010/2011, o projeto mostrou que é possível viajar com orquestra, elenco e produção, com um custo aceitável e oferecer um espetáculo de grande apuro técnico e artístico. Nesta produção, a relação custo-benefício foi bem mais generosa do que a grande maioria da produção operística atual.

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